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Resenha: Okinawa, de Susumu Higa (uma resenha e também o pouco que sei sobre esse arquipélago)

    Já ouviu falar de Okinawa? Eu cresci ouvindo falar desse arquipélago localizado no sul do Japão, porque é de onde meu avô paterno saiu rumo ao Brasil em meados dos anos 1930 (ou seja, há quase um século e sim, antes da Segunda Guerra Mundial). Sabia que era um lugar com cultura e idioma próprios, além dos okinawanos serem fenotipicamente diferentes dos japoneses e ser a terra onde nasceu o caratê.
    Agora, Okinawa, a publicação da qual vou falar, é uma coletânea de um mangá inicialmente publicado em 2 volumes (é um calhamaço, mas como é um mangá, é rápida a leitura) de autoria de Susumu Higa, natural de Okinawa. O mangá é uma ficção histórica, mas com muito dos depoimentos dos seus pais e conhecidos que viveram os horrores da Segunda Guerra Mundial em Okinawa.
    Okinawa foi palco da Batalha de Okinawa, uma das mais sangrentas da Segunda Guerra Mundial e é considerada a maior batalha marítimo-terrestre-aérea da história. É estimado que até 150 mil civis okinawanos perderam a vida nela, fora os soldados. Por anos os Estados Unidos controlaram o território okinawano no Pós-Guerra até 1972, sendo que até hoje eles têm bases militares lá e mudaram pra sempre a cultura local.
    Imagem do mangá Okinawa - a leitura se dá no modo japonês, "ao contrário" para nós brasileiros

    O mangá retrata os horrores da Guerra não apenas durante, mas também após o "fim" dela. Mas a verdade é que a Guerra deixou cicatrizes que perduram até os dias de hoje. Antes da Guerra eclodir em Okinawa, eles já sofriam com um apagamento cultural por parte do Japão, ou seja, suas manifestações culturais únicas e seu idioma local estavam sendo censurados pelo Japão. 
    Os okinawanos (ou uchinanchus, ryukyuanos) sofriam xenofobia e eram vistos como estrangeiros e inferiores assim como sofriam os chineses e coreanos por parte dos japoneses. Hoje, a cultura de Okinawa segue mais viva em certos lugares do Brasil do que no próprio arquipélago. O idioma local está praticamente morto, pois as novas gerações adotaram o japonês como língua materna.
Shisa - um híbrido de leão com dragão de Okinawa - me lembram a carranca brasileira, pois também são colocados nas entradas dos locais

    Hoje em dia, Okinawa é principalmente visto como um refúgio tropical para os japoneses das outras regiões, por conta das suas praias paradisíacas e resorts. Seu povo é visto como mais caloroso que os japoneses das outras províncias e é conhecida como uma "ilha de centenários", por ter uma elevada expectativa de vida - algo que atribuem à dieta rica em peixes e alimentos naturais e também ao estilo de vida. Já ouvi falar que Okinawa é como o "Nordeste brasileiro no Japão" - até a parte do preconceito praticado por algumas pessoas de outras regiões do próprio país eles têm em comum!


As praias paradisíacas de Okinawa

    Depois dessa leitura, parei pra pensar em quantos territórios passam ou passaram por situações semelhantes à de Okinawa e dois locais mais próximos e também famosos que consigo mencionar de bate-pronto são o Havaí e Porto Rico - ambos territórios pertencentes aos Estados Unidos e fato curioso: muitos okinawanos emigraram para o Havaí antes mesmo da Segunda Guerra Mundial.
    Mas depois dessa miniaula sobre Okinawa, preciso falar sobre as minhas impressões sobre o mangá: foi a primeira vez que li algo que tratasse sobre Okinawa de forma direta e de autoria de alguém que teve pessoas próximas que viveram aquilo. Como se trata de Guerra, não tem escapatória: tem cenas pesadas, que causam revolta e que infelizmente seguem ocorrendo todos os dias mundo afora - o que muda agora é a localização.
    É uma leitura feita não só para informar, mas também se revoltar, se inconformar e eu saí querendo ler mais conteúdos que tratem disso e confesso que não conheço mais livros/mangás que tratem do assunto aqui no Brasil. Deveria ser mais famoso e é essencial para quem se interessa pelo Japão e pela Segunda Guerra Mundial.

Livro: Okinawa

Autoria: Susumu Higa

Nota: 5/5

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